Tuesday, September 15, 2009

Rometa e Julieu

Era uma vez uma estória de amor que comeca pelo fim.
Encostada ao peito do seu amado, Rometa pensava com afinco se realmente amava aquele Sansão que lia Virgina Woolf em voz alta, sem conseguir apreciar nem uma palavra. Inspirou o seu cheiro a cavalo e sentiu as entranhas revolverem-se. Seria o medo do compromisso, ou seria ele realmente um burgesso? Assim, ela enunciou a frase que faz a maior parte dos homens tremer de medo:
Amor, temos de falar...

Julieu era um homem alto, gordo e descabelado. Os seus arrotos ouviam-se a meio quilómetro de distância, e ele tinha orgulho em demonstrá-lo em restaurantes de cinco estrelas. À primeira vista, ninguém diria que este Gerard Depardieu à portuguesa era um dos mais conceituados – e multifacetados – artistas plásticos do país.
Rometa era uma rapariga magrita, de olhos cor de avelã rasgados e penetrantes, que trabalhava como estivadora num centro comercial. Fora por acidente – ou sorte, nos tempos que correm, já nem se sabe muito bem... - que tinha arranjado esse trabalho. O que ela gostava realmente de ser era escritora, mas ninguém a levava a sério.

Rometa e Julieu conheceram-se num bar de má fama no Cais do Sodré: ele gostava de mulheres da vida e de coca; ela precisava de uma bebida forte quando saía do trabalho e de ver gente normal, para se sentir viva. Rometa levava uns vodkas a mais na bagagem, e ao ver Julieu snifar uma linha com uma nota de 100 euros, umas mesas à frente, lembrou-se que já o tinha visto na televisão. Por isso, levantou-se, e bamboleando-se, sentou-se na mesa dele. Rodeado de putas, que fugiram quando Rometa se sentou, Julieu esbugalhou os olhos e fitou-a de alto a baixo. Ela sorriu-lhe, um sorriso que só os demónios sabem fazer. Foi tudo o que foi preciso para que acabassem enrolados durante mais de 10 horas seguidas em casa dele.

Recuperando da ressaca, já em casa, Rometa olhava absorta para a parede da sala e não conseguia pensar. Decidiu que talvez devesse deixar de beber tanto, e quem sabe, tentar encontrar um sentido para a vida; ser mãe, arranjar um emprego decente, ficar em casa a ver televisão em vez de ir para bares de má fama procurar sarilhos. Fora mais uma das estórias para contar no livro que nunca iria escrever...

Julieu, por seu turno, estava fascinado com aquela odalisca do povo, que sem dizer uma palavra, arrancara o animal que havia nele. Aquela mulher havia de ser a futura mãe dos filhos dele...

Voltaram a encontrar-se para jantar – Julieu pagava, como um cavalheiro. E como o cavalheiro que era, tentou não comer de boca aberta, nem arrotar, mas a sua natureza era demasiado forte. Rometa, como todas as mulheres, não comentou, mas registou o acontecimento na sua lista de razões para não se envolver mais. Contudo, horas depois, viu-se com o robe dele vestido, em cima de uma poltrona, fumando um cigarro pós-coital e vendo as luzes de Lisboa, ao som de Django Reinhardt.

Ela pensou: o amor deveria ser o sentimento mais simples do Mundo. Não devia ser condicionado por aquilo que os outros pensam ou dizem, nem por aquilo que nós pensamos. Deveria ser algo natural, animal, sem explicações nem razões. Eu não devia ter medo, as pessoas não deviam ter tanto medo. No entanto, estou aterrorizada, apavorada. E este medo vem do facto de eu não amar este homem.

Julieu, no quarto, ressonava. Sonhava em fazer um filho a Rometa e fugir, voltar a aparecer, fazer-lhe outro filho, e fugir de novo. Essa era a relação perfeita entre homem e mulher, até que a morte (ou uma brasileira) os separasse. No seu sonho, Rometa estava sempre à sua espera na cama, de pernas abertas, pronta para mais uma. E depois dela, havia outra amante, noutra ponta da cidade, exactamente na mesma posição. E mais outra... Contudo, seria sempre para Rometa que ele voltaria, porque a amava.

Ao nascer do sol, Rometa vestiu-se, saíu de casa de Julieu sem olhar para trás e prometeu-se encontrar um sentido para a sua vida sem ele. Nem que tivesse de descarregar camiões até ao fim da sua vida...

Meses depois, Julieu apareceu. Haviam concordado em manter uma cordial amizade, que ele constantemente desafiava, contra os esforços diplomáticos de Rometa em manter o nível. Nessa noite, Rometa não resistiu e percebeu que Julieu era o homem da sua vida. E disse-lhe que o amava.

Prometeram tentar durante uma semana serem um casal normal. Ele ia ter a casa dela à noite, jantavam, viam televisão e depois faziam amor. Ao fim de dois dias, Rometa deu-se conta que tinha de mudar os lençóis da cama sempre que ele lá dormia; a tampa da sanita estava sempre para cima; a banheira ficava cheia de cabelos e de gordura depois de ele tomar banho.

Ao sétimo dia, Rometa estava aninhada em Julieu, que lia Virginia Woolf em voz alta, sem conseguir apreciar nem uma palavra. Vencendo o medo de ser tornar invisível e de nunca encontrar um sentido para a vida, ela murmurou:

- Amor, temos de falar...

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