Era de manhã. Ele estava diante do espelho, compondo a gola da camisa, esticando levemente o pescoço. Não se conseguia habituar àquela camisa, tão apertada...
De repente, parou e ficou simplesmente a olhar para o seu reflexo.
Ele passava pela rua, de óculos escuros, cigarro dependurado nos lábios, ainda com o cheiro da noite anterior na pele. Era alto, alourado, e escondia os olhos cor de avelã do Mundo porque, simplesmente, havia demasiada claridade na rua para quem acabava de sair do escuro de um bar.
Parou numa passadeira, e um grupo de raparigas calou-se ao seu lado. Elas olharam para ele de alto a baixo, e começaram a comentar coisas baixinho, enquanto se riam. Ele apercebeu-se disso, deu um passo ao lado e ajeitou o casaco. Pensou que talvez tivesse alguma coisa na cara, e porque raio o homenzinho vermelho nunca mais passava a verde...
Mas ele era assim: uma estampa, diziam uns. Um arrogante, diziam outros. E ele, como não sabia fazer mais nada, aproveitava. Se elas queriam ir para a cama com ele, excelente. A porta fica ali no corredor, depois é só descer as escadas... Se eles queriam ser amigos dele, melhor. Mais amigas se seguiriam. No fundo, a relação mais verdadeira que ele tinha era com uma garrafa de cerveja, aquela que se seguia à anterior. O demais eram coisas triviais.
Perto do Dia dos Namorados (a caixa de mensagens do seu telemóvel já não aguentava nem mais um convite para essa noite...), ele descia a Rua do Alecrim. Por alguma razão, talvez por ser o fim da tarde, a rua estava cheia de gente que andava para cima e para baixo, movendo-se rapidamente.
Contudo, ele descia ao seu passo, desviando-se devagar, vendo o corropio em câmara lenta, indiferente.
O rosto dela iluminava-se com uma aura dourada - um resquício dos raios de sol da tarde, incidindo nela. Morena, com um cachecol vermelho, ia subindo a rua, os olhos saltitando entre os transeuntes e os carros. A ele, pareceu-lhe ter escutado uma canção familiar ao longe, e seguiu a luz. Ela olhou para ele, primeiro como quem olha para o vazio, depois observando-o por uns segundos. O raio de luz cruzou as lentes dos óculos escuros, e ele entreabriu os lábios, como se fosse beijá-la. Mas, ao passar ao lado dele, ela só sorriu e continuou a subir a rua. Ele parou e olhou para trás, observando-a. Era apenas uma rapariga de sobretudo creme, um cachecol vermelho e calças de ganga...
Nessa noite, ele estava com os amigos de sempre, no café do costume, mas por alguma razão, nada lhe parecia igual. Brincava com a garrafa de cerveja, distraído, como que tentando fingir que estava tudo na mesma. Pela primeira vez, admitiu para si - em segredo, nunca ninguém poderia saber - que estava tão sozinho que doía. Não era amor, eram sombras que o rodeavam, e que se dissipavam quando ele as procurava. Bebeu mais um gole de cerveja, mas a garganta tinha um nó. Os risos, as conversas, a música, a presença humana, estavam tão longe... preso numa cave da sua própria mente...
Era de manhã. Ele estava diante do espelho, compondo a gola da camisa, esticando levemente o pescoço. Não se conseguia habituar àquela camisa, tão apertada...
De repente, parou e ficou simplesmente a olhar para o seu reflexo. Não era a camisa que estava apertada, era o peito. Vieram-lhe as lágrimas aos olhos e mandou uma cabeçada contra o espelho, partindo-o.
Ao ver o sangue a escorrer-lhe na testa, sentiu-se um bocadinho mais vivo. E depois desmaiou.
Ninguém veio ver dele...
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