Às vezes, fecho os olhos, e imagino: vejo as linhas paralelas dos comboios, e voo por cima delas, rasando, as linhas que são sempre as mesmas, mas sucedendo-se, para sempre. É um filme que nunca termina, o das linhas dos comboios. É uma viagem cujo destino é desconhecido, mas que tem um sentido: sempre em frente.
Alguém me disse, um dia, que as linhas se cruzam no infinito. No entanto, com os meus conhecimentos (esquecidos) de rectas e de geometria, parece-me que isto é uma impossiblidade. As linhas estendem-se até ao infinito, mas o cruzar-se é uma ilusão de óptica. Mas os carris cruzam-se algures no tempo, isso é verdade. Cruzam-se quando há mudanças no caminho, curvas e contra-curvas, como opções tomadas pelo viajante que rola por aquelas linhas fora.
Cada um de nós é um par de linhas. Somos linhas paralelas que nos estendemos para sempre, e que de vez quando, nos cruzamos com outras linhas, nas curvas e contra-curvas das nossas decisões. Há paragens, sobressaltos, pedras no caminho, abrandamentos e acelerações. Mas seguimos, um comboio de ferro e de vapor, sempre em frente. E, tal como nos cruzamos com outras linhas, delas nos separamos para seguir a nossa viagem solitária.
Penso assim. Vejo o filme das linhas paralelas, interminável, aparentemente sempre igual, frame depois de frame, sem tempo definido. Sinto as mudanças, as curvas e elas surpreendem-me, muitas vezes. No entanto, por mais que queira olhar para trás, e tentar perceber de onde venho – onde começou a viagem – parece que apenas uma pergunta permanece: onde me vão levar estas linhas?
Não vejo a paisagem. Imagino cidades industrializadas, pequenos apeadeiros esquecidos, florestas, campos, o deserto... contudo, tudo o que importa são aquelas malditas linhas que nunca se cruzam, ou cujo toque dura apenas uns segundos. O filme rola, a câmara filma, e o tempo passa, impiedoso, pesado, o fumo do comboio que se escapa. Tudo se escapa, quando se encontra.
Na escala cósmica, como me dizia alguém – não o mesmo que achava que as linhas se cruzam no infinito, eu conheço muita gente que diz muita coisa... - as nossas vidas não passam de uma espécie de suspiro. Qualquer porcaria de estrela vive muito mais tempo do que um ser humano, e com certeza que não se queixa tanto. Por isso é que quando fecho os olhos e vejo aquelas linhas paralelas, não fico triste. É uma viagem, a nossa viagem. Pode ter curvas, contra-curvas, pedras, ervas daninhas, um suicida ocasional, mas todas essas coisas são nossas e, mesmo que as percamos quando a linha nos troca o passo, nada nos pode tirar as recordações.
Há que se aceitar essa simples realidade: não importa que as linhas se cruzem no infinito ou não. Elas correm juntas, lado a lado. E entrelaçam-se ao sabor das opções da viagem. Porquê lamentar que continuem a seguir lado a lado e não se toquem mais?
Somos linhas paralelas. O resto não interessa nada...
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