Saturday, August 15, 2009

A nossa humanidade

A Time Out n. 98 traz um artigo que achei fenomenal; traçar o perfil dos engates em Lisboa. Este trabalho veio como um tsunami de encontro aos meus próprios pensamentos em relação ao tema, tendo em conta que eu também ando aí. Segundo este estudo informal, engatar na noite de Lisboa é fácil, tanto para homens como para mulheres, e parece até que o é ainda melhor quando mete estrangeiros à mistura. Ou seja, um tuga estará sempre mais inclinado a enrolar-se com um turista do que com outro tuga. O que é nacional é bom? A mim, cheira-me a provincianismo esturricado, do tempo das suecas e das francesas a fazer topless na Costa da Caparica. Aparentemente, a mulher portuguesa estaria demasiado ocupada a cozinhar, a fazer o bigode e a lançar olhares de reprovação a quem mostrava mais do que o tornozelo no adro da igreja... É evidente que os tempos mudam, mas pelos vistos as mentalidades não, porque continua a ser uma questao de auto-estima e de status andar pendurado a um americano loiro, ou a uma eslovaca ainda mais loira.

Outro dado interessante que o artigo foca é o de que, embora o engate seja muito fácil, quem busca mais do que o suprir de necessidades biológicas típicas da espécie tem a vida muito mais dificultada. Ou, como eu costumo dizer, pichas há muitas, mas homens é que há poucos. Aparentemente, as pessoas têm uma extrema dificuldade em relacionar-se devido à bagagem emocional que transportam com elas, sendo portanto mais fácil viver com uns quantos one-night-stands na consciência, do que com a memória de relações falhadas. O peso do dia-a-dia, a crise (?), a rotina, as carreiras e essas coisas todas tiram a tesão à coisa. Mais, e isto é sério: a fidelidade também anda pelas ruas do Bairro Alto, tendo já passado por melhores dias. não é nada invulgar ver a malta a dar uma de amante latino (e latina, que isto toca a todos), com a monga (ou mongo) em casa a ver televisão. Na verdade, quem sabe? Se calhar, os ditos-cujos estao na esquina acima a fazer exactamente o mesmo.

A minha experiência diz-me que estou mal-habituada: gosto de me sentar ao balcão de um bar a beber qualquer coisa, e gosto de conhecer as pessoas à minha volta, sem esperar levar alguém para casa. Erro crasso, porque é muito provável que me queiram levar a mim para casa, o que é lamentável, dada a minha boa-vontade em conhecer gente.

Ao mesmo tempo, por muita vontade de rir que tenha ao analisar esta radiografia da nossa sociedade (e em grande parte, da dos outros também), não consigo deixar de me sentir triste com a mediocridade das pessoas. Entristece-me o facto de as pessoas em geral andarem por aí a passear-se de copo na mao, pintando uma auto-imagem estilo pavão (cauda bem aberta para mostrar o uau em si), para satisfazerem necessidades que, no fundo, não passam de falácias para encobrir a sua própria solidão. O flirt, o engate, o sexo, isso é tudo fantástico, mas não tem piada nenhuma se não acarta em si qualquer tipo de sentimento. Nesse caso, representa uma postura egocêntrica, básica, vazia e inútil.
A maior parte das pessoas com que me relacionei nessa base desde que me vi numa estação de comboios com a minha vida em caixas corresponde inteiramente ao perfil acima descrito: monga em casa (e quando sem monga em casa, monga fantasma na sua cabeca), cauda de pavão em leque mostrando o quao bons foram há não sei quantos anos atrás, ansiosos por consumar mais uma fetichada. De resto, nada. Absolutamente nada. Existe sempre uma desculpa emocionalmente forte (aparentemente!) para que os laços não se estreitem. E é com alguma mágoa que tenho de me inserir neste grupo, porque eu também já o fiz. Só que pergunto-me se alguma destas pessoas teve os problemas de consciência que eu tive ao abandonar de certa pessoa ao raiar do dia.

Acho que este é um exemplo numa escala muito doméstica (de alcofa!) de como há pessoas cuja humanidade simplesmente desapareceu. Pessoas que olham para os outros como um meio para atingir um fim, neste caso, satisfação do ego e satisfação sexual. Por isso é que é tão dificil separar o trigo do joio, e encontrar alguém que seja, ainda, um pouco humano – com tanto pavão para aí de copo na mão, não admira...

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